A mulher desiludida

Clássico de Beauvoir reúne três narrativas sobre mulheres em crise

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Summer Interior, Edward Hopper

6 de março de 2017 – Literatura

“A mulher desiludida” (Nova Fronteira; 254 páginas; 34 reais) é um dos clássicos da filósofa, escritora e feminista Simone de Beauvoir, mais conhecida por seu ensaio ” O Segundo Sexo” (Le Deuxième Sexe, 1949). O livro reúne três narrativas que tratam de mulheres que passam por crises existências desencadeadas pela passagem do tempo e pela consequente mudança do papel delas na vida dos filhos e dos maridos.

Em “Idade da Descrição”, primeira narrativa do livro, conhecemos uma escritora envolta com a questão do envelhecimento, a desilusão com o único filho, a crise profissional e as sutis mudanças em seu relacionamento com o esposo, o intelectual André. Com o filho se distanciando cada vez mais do que ela idealizou, a protagonista se vê preocupada com um futuro incerto e o prenúncio da velhice. O conto tem caráter autobiográfico.

Já em ” Monólogo”, adentramos no fluxo de pensamento de Murielle, mulher em crise após duas separações e o suicídio da filha. A autora nos apresenta as ideias ansiosas da personagem por meio de uma narrativa experimental que tenta reproduzir o fluxo do pensamento.

Na última história, também intitulada “A mulher desiludida”, a protagonista Monique se desestrutura completamente quando descobre que o marido mudou, já não a ama como antes e tem uma amante. Ao mesmo tempo, suas filhas cresceram e vivem independentemente suas próprias vidas. Ao ver a vida para a qual se dedicou, em torno do marido e da criação das filhas, se esvair, Monique se vê desesperadamente em crise. Mas ela precisará aceitar que mudar é inevitável e que não há como escapar do futuro.

Embora a percepção da mulher sobre seu papel na família e na sociedade tenha mudado e segue mudando desde que Beauvoir publicou o livro em 1968, certamente as três narrativas descritas em ” A mulher desiludida” representam o dilema de muitas mulheres que, mesmo ativas intelectual e profissionalmente, ainda enfrentam o vazio que por vezes se apresenta quando os filhos crescem ou a relação com o cônjuge já não é mais a mesma. Sem dúvida, “A mulher desiludida” vale pelas reflexões ainda pertinentes que suscita e por seu inquestionável valor literário.

Leia trecho do livro:

Estão de pijamas, bebem café, sorriem um ao outro… esta visão me faz mal. Quando se bate em uma pedra, sente-se primeiro um choque, a dor vem depois. Com uma semana de atraso, eu começo a sofrer. Antes, eu estava o que se chama baratinada. Raciocinava, afastava essa dor que se abate sobre mim esta manhã: as visões. Dou voltas e voltas no apartamento, cada passo requerendo outro. Abri sua gaveta. Olhei seus pijamas, suas camisas, suas camisetas, suas malhas e me pus a chorar. Não suporto que uma outra possa acariciar sua face na doçura desta seda, na ternura deste pulôver.

Não vigiei como devia. Pensei que Maurice envelhecia, que trabalhava em excesso , e que eu deveria conformar-me com sua frieza. Começou a considerar-me mais ou menos uma irmã. Noellie acordou seus desejos. Tenha ou não temperamento, deve saber bem como comportar-se na cama. Ele tornou a encontrar a alegria orgulhosa de dar prazer a uma mulher. Deitar, não é somente deitar. Existe entre eles essa intimidade que só a mim pertencia. Ao acordar, será que ele a aninha nos braços chamando-a minha gazela, meu passarinho dos bosques? Ou inventou outros nomes que pronuncia com a mesma voz? Ou se forjou também uma outra voz? Barbeia-se e lhe sorri, os olhos mais escuros e mais brilhantes, a boca mais nua, sob a máscara de espuma branca. Ele surgiu no enquadramento da porta com um grande buquê de rosas vermelhas envoltas em celofane… Será que lhe envia flores?

Serram-me o coração com uma serra de dentes fininhos.

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O Outro Eu

Já se viu dividido entre vários “eus”? Confira conto do escritor uruguaio Mario Benedetti sobre o tema

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Heroes, Ivan Pinkava

30 de janeiro de 2017 – Literatura

Quem nunca encarou diante de si os vários “eus” que nos habita? Dentro de nós mora muitas personalidades; umas são mais fáceis de encaixar no que desejamos para nós mesmos, outras nem tanto. Algumas delas são perfeitas para as demandas do mundo em que vivemos, outras deixam a desejar. Pesquisando sobre o tema, conheci o conto “El Otro Yo”, do escritor uruguaio Mario Benedetti. O texto, curto e preciso, trata da história de Armando Corriente e seu “outro eu”. Confira a tradução livre do conto:

O Outro Eu

(A morte e outras surpresas, 1968)

Tratava-se de um rapaz comum: usava calças da moda, lia gibis, fazia barulho enquanto comia, cutucava o nariz com o dedo, roncava durante a soneca, se chamava Armando Corriente* em tudo menos em uma coisa: tinha um Outro Eu.

O Outro Eu usava certa poesia no olhar, se apaixonava pelas atrizes, mentia cautelosamente, se emocionava com o entardecer. O rapaz se preocupava muito com seu Outro Eu e o fazia se sentir incomodado diante de seus amigos. Já o Outro Eu era melancólico e, por causa disso, Armando não podia ser tão vulgar quanto desejava.

Uma tarde Armando chegou cansado do trabalho, tirou os sapatos, moveu lentamente os dedos dos pés e ligou o rádio. Estava tocando Mozart, mas o rapaz dormiu. Quando acordou, o Outro Eu chorava desconsoladamente. Em um primeiro momento, o rapaz não soube o que fazer, mas depois se refez e conscientemente insultou o Outro Eu. Este não disse nada, mas na manhã seguinte já havia se matado.

No começo, a morte do Outro Eu foi um duro golpe para o pobre Armando, mas depois ele pensou que agora sim poderia ser inteiramente vulgar. Esse pensamento o reconfortou.

Levava apenas cinco dias de luto quando saiu pelas ruas com o propósito de exibir sua nova e completa vulgaridade. De longe viu que seus amigos se aproximavam. Isso o encheu de felicidade e o fez imediatamente explodir em risadas. Entretanto, quando passaram próximo dele, seus amigos não notaram sua presença. Para piorar, o rapaz pôde escutar que comentavam: “Pobre Armando. E pensar que parecia tão forte e saudável”.

O rapaz não teve outro remédio que parar de rir e, ao mesmo tempo, sentiu na altura do peito uma aflição que se parecia muito a nostalgia. Mas ele não pôde sentir uma autêntica melancolia, porque toda a melancolia tinha sido levada pelo Outro Eu.

* A palavra “corriente” pode significar “comum”, “regular”, “não extraordinário” em espanhol.