Dualidade no cinema

“Beasts of No Nation ” é um convite à reflexão sobre a guerra e os nossos inimigos

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“Beasts of No Nation” é o primeiro longa-metragem de ficção da Netflix

20 de fevereiro de 2017 – Cinema

“Não és bom, nem és mau: és triste e humano”, disse o poeta Olavo Bilac no primeiro verso de “Dualidade”. Com esse poema, Bilac faz refletir sobre a condição humana, na qual oscilamos entre a realização de “horrores e ações sublimes”. Ao tratar dessa dualidade, “Beasts of No Nation” (Cary Fukunaga, 2015), assim como o poema de Bilac,  faz com que lembremos nossa humanidade e, acima de tudo, a humanidade de nossos inimigos.

O atual inimigo número um das grandes potências é o Estado Islâmico. No Brasil, embora não tenhamos tido nenhuma experiência direta com o terrorismo, acompanhamos com apreensão o cenário internacional.

Basta ligar a televisão em uma noite de domingo para identificar um número significativo de reportagens especiais sobre os “monstruosos” integrantes desse grupo extremista.

As reportagens jornalísticas sobre o tema são catastróficas; o objetivo, é claro, é que sejam mais violentas e amedrontadoras que o mais macabro filme de ficção. Afinal de contas, já faz algum tempo que as regras do bom jornalismo não têm como competir com a sede por audiência.

O grande problema em relação ao modo como a mídia trata o tema é que, ao abordá-lo de maneira tão maquiavélica e simplista, ela reduz nossa capacidade de reflexão sobre a complexa sociedade na qual vivemos.

É claro que os atos dos integrantes do Estado Islâmico são monstruosos. Afinal, eles têm decapitado e matado centenas de inocentes mundo afora. Embora possamos dizer que os atos de guerra desses indivíduos são assombrosos, poderíamos falar que eles são reles monstros, negando-lhes a condição humana?

A maioria das reportagens de televisão que vemos sobre o tema conduz a uma estreita linha de pensamento: sim, eles são, simplesmente, os seres mais vis que já existiram.

Essas reportagens quase sempre lhes negam toda a humanidade. O problema é que esse raso raciocínio só conduz a população ao puro e simples medo, e esse sentimento nunca foi um bom conselheiro.

Quando nossa população tem diariamente o temor alimentado, ela perde o poder de reflexão, e aí já não importa por quantas guerras tenhamos passado, quantos livros já tenhamos escrito ou quantos monumentos já tenhamos criado para falar dos perigos de enveredar por conflitos armados. O medo faz esquecer as lições do passado; torna-nos mais manipuláveis e propensos ao ódio.

“Beasts of No Nation” não é um filme espetacular. Baseado no livro “Feras de nenhum lugar” (ed. Nova Fronteira; 192 páginas, esgotado), do nigeriano Uzodinma Iweala, ele é muito similar a outros filmes de guerra, mas um de seus méritos, talvez, seja o fato de nele a história ser contada desde o ponto de vista de um menino-soldado.

Agu (vivido pelo ator Abraham Attah, que com o papel ganhou o prêmio de ator revelação no Festival de Veneza) é uma criança que vive em uma não especificada nação africana. Ele representa as tantas crianças-soldado, “feras de nenhum lugar”, que vivem a guerra em vários cantos do mundo.

O enredo do filme é simples: no início da história, conhecemos a vida modesta e feliz de Agu e em seguida acompanhamos como ele se torna, após o massacre de seus familiares, um soldado disposto a cometer atrocidades.

O elenco conta com o ator inglês Idris Elba, que interpreta a personagem conhecida como Comandante, e a direção é de Cary Fukunaga, diretor da primeira temporada da série “True Detective”. Vale lembrar também que a obra é o primeiro longa-metragem de ficção da Netflix.

É o que nos ensina a personagem Agu que faz com que o filme se destaque de outros: em um determinado momento da história, a criança avalia os crimes que cometeu e chama a si mesma de monstro, mas nos lembra que algum dia teve uma família que a amou.

Embora esse menino atormentado veja a si mesmo de maneira tão negativa, ao acompanhar sua história temos contato com sua dualidade e podemos reconhecer nele alguém que se tornou capaz das mais horríveis atrocidades, mas a quem não podemos negar sua condição humana.

O mérito do filme é a capacidade que ele tem de conduzir a essas reflexões, sobretudo em esses tempos nos quais muitas vezes somos guiados, pela televisão, apenas pelos caminhos simplistas do medo.

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Roma, de Adolfo Aristarain, é homenagem a uma grande mulher

Obra do cineasta argentino tem excessos, mas presenteia espectadores com personagens marcantes e prospecto de parte da história política da Argentina

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Susú  Pecoraro interpreta mãe dedicada no filme ” Roma – Um nome de mulher”

23 de janeiro de 2017 – Cinema

Há tempos que “Roma – Um nome de mulher” (Roma, 2004), do cineasta argentino Adolfo Aristarain, estava na lista de filmes que gostaria de assistir. Felizmente, e depois de muito protelar, pude vê-lo. É inegável que a obra de Aristarain tem alguns excessos, mas ainda assim vale a pena apreciá-la.

Nesse filme, você vai ter a oportunidade de conhecer uma grande mãe, daquelas que quase todo mundo gostaria de ter. (Ah, o “quase” da última frase é só para evitar generalizações, porque elas quase nunca condizem com a realidade, ainda que, nessa mesma sentença, essa palavra pareça desnecessária para mim).

O enredo de “Roma- Um nome de mulher” é centrado na vida do escritor Joaquín Goñez, vivido pelo consagrado ator espanhol José Sacristán. Goñez precisa enviar a uma editora de livros o material que vai compor sua autobiografia e, para isso, recebe a ajuda do jovem jornalista Manuel Cueto (Juan Diego Botto), responsável por digitalizar seus manuscritos.

A partir daí, o amargurado escritor narra e comenta sua vida ao rapaz, e nós conhecemos passagens de sua infância, adolescência e juventude, bem como um pouco da história política da Argentina dos anos 1950 em diante.

Goñez narra a perda do pai (Gustavo Garzón) e as mudanças pelas quais sua vida passa depois desse acontecimento. Nessa caminhada, e à medida que o garoto cresce, vamos conhecendo seus amigos, seu gosto pela literatura e pelo jazz, sua relação com a política e sua paixão pela jovem Renée (Marcela Kloosterboer).

Goñez é um rapaz completamente mediano, que representaria muito bem a maioria dos jovens de sua época. Mas ele gosta das palavras e não se adapta ao padrão que normalmente a sociedade impõe a alguém que começa a envelhecer: ele quer viver da escrita, o que normalmente não é fácil; não leva dinheiro para casa e vive com a ajuda da mãe e com os trocados que recebe fazendo traduções e dando aulas de inglês.

Daí até se mudar para a Espanha e se tornar um escritor de sucesso é sua mãe quem o ajuda. Acompanhando a trajetória do filho, Roma, vivida pela atriz Susú Pecoraro, vai crescendo na trama e mostra por que, afinal de contas, é ela quem dá nome ao filme.

A obra de Aristarain peca pelo excesso: a narrativa se arrasta em duas horas e meia de filme; há tanta gente e tanta história que o espectador teme se perder. A própria Roma, no início do longa, é uma figura menor, enquanto a grande fonte de inspiração do pequeno Goñez parece ser o espirituoso pai.

Ainda assim, ela vai ganhando espaço na obra e, como faz a maioria das nossas mães, está sempre lá, quietinha, fazendo grandes sacrifícios pela felicidade do rebento.

É dela os melhores diálogos do filme e a melhor cena da obra. Sentada diante do piano que a acompanhou por toda a vida, Roma revela ao filho que ele nada lhe deve, nada precisa fazer e nenhuma meta precisa alcançar, porque a felicidade dele, seja lá como for, é sua única meta.

Roma libera o filho para ser quem ele é, sem que precise se prender a remorsos ou tentativas frustradas de alcançar metas impostas socialmente. O que Roma diz nessa cena é, certamente, algo valioso a se dizer a qualquer filho, principalmente se sua cria é daquelas que não consegue se ajustar ao que a sociedade faz com que esperemos das pessoas à medida que elas crescem.

Essa cena de Roma diante do piano é de fato comovente: justifica a personagem do filho, da mãe, o nome do filme e todo o resto. As palavras dela são, para mim, mais libertadoras e tocantes do que a própria atitude que ela toma para garantir que o filho possa realizar o desejo de tentar a sorte no velho continente (ação essa que o espectador vai descobrir lá pelo final do filme).

Vale lembrar que a obra faz referência à própria vida do diretor Aristarain. À época do lançamento, a crítica não foi tão generosa com o filme, mas eu ainda acho que o diretor fez uma bela homenagem a sua mãe.