As fotografias de Stanley Kubrick: conheça o trabalho que o artista produziu antes de se tornar cineasta

O famoso diretor de cinema foi fotógrafo profissional até 1950 e afirmava que a experiência foi fundamental para sua carreira; confira as fotos

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Kubrick e a atriz Faye Emerson, 1950. Stanley Kubrick, photographer, LOOK Magazine Photograph Collection, Library of Congress, Prints & Photographs Division.

16 de novembro de 2018 – Fotografia; Cinema

Nem todo mundo sabe, mas o famoso cineasta Stanley Kubrick (1928 – 1999), conhecido por clássicos como “2001: Uma Odisseia no Espaço”, “O Iluminado” e “Laranja Mecânica”, já foi fotógrafo profissional. Ele trabalhou na revista norte-americana Look, que funcionou em Nova York até 1971, entre os anos de 1945 e 1950.

O apreço pela arte surgiu com o pai, Jacques, que era fotógrafo amador. Stanley ganhou a primeira câmera aos 13 anos e aos 17 vendeu sua primeira foto à revista na qual trabalharia mais tarde. A imagem retrata um homem em uma banca de jornais, desolado com a notícia da morte do presidente Roosevelt. Oficialmente, Stanley trabalhou  na Look entre janeiro de 1947 e setembro de 1950.

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Mulher no metrô. Stanley Kubrick, photographer, LOOK Magazine Photograph Collection, Library of Congress, Prints & Photographs Division.

 

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Executivo e profissionais do circo, 1948. Stanley Kubrick, photographer, LOOK Magazine Photograph Collection, Library of Congress, Prints & Photographs Division.
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O cartunista Peter Arno, 1949. Stanley Kubrick, photographer, LOOK Magazine Photograph Collection, Library of Congress, Prints & Photographs Division.

Com ângulos originais e ótimas composições, o artista registrou centenas de cenas do dia a dia da Big Apple, como pessoas nas ruas, no metrô e os bastidores da vida de artistas e boxeadores.

Além da originalidade em algumas das composições, observa-se também o uso dramático de luzes, o emprego do contramergulho e a presença de um estilo noir, o que também pode ser percebido em alguns de seus primeiros filmes, como “A morte passou por perto“.

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Boxeador Rocky Graziano. Stanley Kubrick, photographer, LOOK Magazine Photograph Collection, Library of Congress, Prints & Photographs Division.
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Garoto engraxate. Stanley Kubrick, photographer, LOOK Magazine Photograph Collection, Library of Congress, Prints & Photographs Division.

Em pouco tempo de atuação profissional, o artista produziu cerca de 15 mil negativos e chegou a declarar que a fase na Look correspondeu à graduação universitária que nunca teve. A experiência foi considerada por ele decisiva para a sua formação. Veja mais fotos aqui.

Na carreira cinematográfica, Stanley Kubrick ficou conhecido pela originalidade e pelo perfeccionismo. É considerado um dos mais aclamados diretores do século XX e um dos mais influentes da história. O artista morreu em 1999, na Inglaterra, em decorrência de um ataque cardíaco.

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Aclamado pelo público, filme uruguaio ajuda a refletir sobre os horrores da ditadura

” Uma noite de 12 anos” narra a história do ex-presidente do Uruguai José Mujica e outros dois companheiros durante regime de exceção no país

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História trata do período em que José Mujica, Mauricio Rosencof e Fernández Huidobro foram presos políticos no Uruguai. Foto: Divulgação.

26 de outubro de 2018 – Cinema

O filme “Uma noite de 12 anos”, do diretor uruguaio Álvaro Brechner, não é um filme excepcional, mas aborda com eficiência técnica o tema da ditadura e suas consequências.

Em tempos nos quais jovens incautos – às vezes não tão jovens ou não tão incautos assim – põem a história em xeque nas redes sociais e chegam a duvidar da ocorrência da Ditadura de 64 ou do Holocausto, trazer o tema à baila de forma competente já é mérito suficiente para dedicar à obra um lugar na programação cultural familiar.

Baseado no livro “Memórias do calabouço”, escrito por Mauricio Rosencof e Fernández Huidobro, o longa narra a experiência dos escritores e do ex-presidente do Uruguai José Mujica durante o período em que foram presos políticos da ditadura uruguaia (1973- 1985).

Líderes do grupo guerrilheiro Tupamaros, os jovens ficaram durante anos encarcerados em prisões subterrâneas, sujeitos a todo tipo de restrição. O filme aborda brevemente a trajetória política dos personagens, mas foca acertadamente na luta pessoal deles para sobreviver física e mentalmente ao martírio.

A fotografia fria e os planos fechados, bem como o uso repetido da câmera alta (que mostra o personagem de cima para baixo, diminuindo-o), ajudam a fazer com que o espectador possa entender a experiência da tortura.

O som é outro recurso usado de maneira eficiente no longa – a ausência de trilha sonora em certas cenas e a ampliação de ruídos que remetem ao enclausuramento, como o fechar das portas ou o barulho de trancas, também ajudam o espectador a vivenciar a sensação claustrofóbica.

Validado pela crítica e aplaudido pelo público, ” Uma noite de 12 anos” cumpre bem umas das possíveis funções do cinema – a de nos fazer lembrar a história e refletir sobre ela. Por causa disso, é obra recomendável àquelas pessoas imprudentes que, ainda nos dias de hoje, cismam em relativizar os horrores inerentes a qualquer regime autoritário.

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Livro ensina passo a passo como fazer filme

Conciso e de fácil leitura, guia dá dicas sobre todo o processo de produção audiovisual a aficionados que têm uma ideia na cabeça e uma câmera ou celular na mão

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Apaixonados por cinema podem conhecer regras fundamentais sobre a linguagem em livro que ensina passo a passo

7 de setembro de 2018 – Cinema

O “Guia para fazer seu próprio filme em 39 passos” (Editorial Gustavo Gili, 136 páginas, 59 reais), da revista britânica Little White Lies, cumpre com eficiência sua proposta: apresenta de maneira concisa e didática o bê-á-bá àqueles que querem se aventurar no mundo do audiovisual.

Dividida em quatro grandes temas ( preparativos, filmagem, pós-produção e recursos), a obra apresenta ótimas referências de clássicos e projetos mais atuais que exemplificam a linguagem do cinema.

O passo a passo é mais voltado a amadores ou estudantes com poucos recursos, mas pode ser útil a todos que se interessem pelo tema, inclusive aqueles que não pretendem pôr a mão na massa, mas que gostam de curtir uma pipoquinha no sofá de casa.

Para quem pensa em se aventurar pelo processo de criação, o livro mostra a importância de planejar a história por meio do storyboard e do cálculo do orçamento, por exemplo, bem como de montar a equipe e pensar nas locações e nos equipamentos.

Quanto às técnicas de filmagem, dá dicas de composição, planos, tomadas e outros aspectos típicos da linguagem. Com diagramação leve e escrita didática, a obra apresenta a maioria das regras básicas do cinema.

E o mais legal: a produção leva em consideração eventuais limitações que amadores possam ter e também o uso das novas tecnologias. Por isso, não desanime se você tem planos de gravar com celular. É possível criar produções com baixo orçamento, a exemplo das obras Frances Ha (Noah Baumbach, 2012 ) e Following  (Christopher Nolan, 1998), que aparecem como referência no guia.

Ainda há dicas de pós-produção e tabelas para a sistematização de todo o processo, como fichas de elenco, modelo de roteiro e planos de filmagem.

Para quem gosta apenas de apreciar a sétima arte, as páginas em azul trazem indicações de filmes que todo cinéfilo deveria conhecer ( há clássicos e trabalhos mais atuais).

Perfeito para quem sonha em aprender sobre o tema e não tem grana ou tempo para investir em uma educação formal, o livro é um curso conciso, eficiente e compacto sobre o que aspirantes e apaixonados deveriam saber de cor e salteado sobre cinema.

Este artigo também foi publicado no Resumo Fotográfico

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A memória e a paixão de Elsa Dorfman

Em ” The B-Side”, Errol Morris fala das memórias e da relação de amor entre a retratista Elsa Dorfman e a fotografia instantânea

Self Portrait, 2003. Elsa Dorfman
Self Portrait, 2003. Elsa Dorfman.

9 de maio de 2018 – Fotografia e Cinema

Na década de 1980, Elsa Dorfman estampava capas de revistas e dava entrevistas falando sobre sua grande paixão: a câmera Polaroid que produzia instantâneos de 20 polegadas de largura e 20 de altura, com cores saturadas e ótima definição. As fotos de Elsa retratavam personalidades, como os poetas Allen Ginsberg e Robert Creeley, e também anônimos. Havia além disso em seu trabalho muitos autorretratos, nos quais ela aparecia quase sempre segurando de maneira confiante os cabos do disparador da câmera. O documentário The B-Side: Elsa Dorfman’s Portrait Photography ( O Lado B: A fotografia de retrato de Elsa Dorfman, em tradução livre), do diretor Errol Morris, resgata a história dessa artista por vezes desconhecida do grande público e que teve trabalho relevante no campo da fotografia analógica e instantânea.

Para ela, a paixão pela arte veio tarde. Já tinha 28 anos quando um colega lhe deu uma câmera Hasselblad, com a qual passou a fotografar amigos e algumas celebridades. Com o tempo, conseguiu montar seu próprio estúdio e passou a trabalhar com a Polaroid 50,8 X 61 centímetros, uma das únicas cinco produzidas pela empresa de foto instantânea.

O trabalho de Elsa é, como ela mesma descreve no documentário, solar. Amigos ou famílias desconhecidas compostas por casais, filhos, netos e seus cachorros postam-se diante de um fundo neutro, lançam o melhor sorriso e zás! – Elsa e sua companheira gigante fazem a foto. Com sua obra, a artista quer atingir a superfície dessas pessoas, não a alma delas. E quer uma superfície alegre. ” A vida já é tão difícil, não precisa andar por aí com uma fotografia disso”, afirma a artista.

Iluminada também é a própria Elsa. E isso fica claro na entrevista de tom intimista que Errol Morris consegue fazer com a amiga. Ele é um aclamado cineasta norte-americano que já foi considerado um dos quarenta melhores diretores do mundo pelo The Guardian. Em sua lista de trabalhos, destacam-se o prestigiado documentário Sob a Névoa da Guerra (2003) e Procedimento Operacional Padrão (2008).

Elsa Dorfman fala sobre os pais, o esposo, o filho e personalidades como Bob Dylan e o grande amigo e poeta Ginsberg enquanto mostra as dezenas de polaroids que tem arquivadas em casa e que são o lado b de sua produção – já que as pessoas que a contratavam costumavam escolher uma foto do par de imagens que a artista produzia e deixavam para trás a fotografia que consideravam menos elogiosa. O lado B da obra é, para a artista, aquele que quase sempre produziu os melhores resultados.

Ao falar da morte de Allen Ginsberg enquanto observa uma imagem do poeta, a fotógrafa revela o que pode ser sua maior percepção sobre essa arte : “Talvez seja assim que as fotografias atinjam seu significado definitivo, quando a pessoa fotografada morre”.

Com o declínio da empresa Polaroid, Elsa chegou a anunciar em 2016 a sua aposentaria. Mas, ao que tudo indica – basta uma breve pesquisada no site da artista para perceber isso – , ela continua conseguindo os recursos para trabalhar e segue resistindo com sua paixão pelo analógico e instantâneo.

The B-Side: Elsa Dorfman’s Portrait Photography ajuda a preservar a memória dessa fotógrafa que não sabemos até quando poderá resistir à passagem do tempo e à mudança da tecnologia.

E aí, gostou? Então deixe um recado nos comentários ou entre em contato. Adoro trocar figurinhas 🙂

 

Kusturica no Sesc Palladium

Além de exibição das obras do diretor sérvio, há também sessão comentada e debate; evento acontece até 9 de abril e tem programação gratuita

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Cena do filme Underground – Mentiras de guerra. Crédito: Divulgação.

3 de abril de 2017 – Cinema 

Interessados em conhecer a obra de Kusturica têm até o dia 9 de abril para conferir toda a filmografia do diretor sérvio. Além dos filmes, que incluem os ganhadores da Palma de Ouro Quando papai saiu em viagem de negócios e Underground – Mentiras de Guerra, vai haver sessão comentada e dia de debate.

O evento acontece no Sesc Palladium de Belo Horizonte. A programação, que é toda gratuita, pode ser conferida aqui.

Serviço:

Mostra Kusturica
Data: 21/03 a 9/04.
Local: Sesc Palladium – Rua Rio de Janeiro, 1.046 – Centro – Belo Horizonte.
Entrada gratuita.
Retirada de ingresso 30 minutos antes da sessão.

 

Filme “Mundo Deserto de Almas Negras” tem proposta interessante, mas é irregular

Longa é o primeiro do diretor brasileiro Ruy Veridiano

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Sidney Santiago em cena do longa “Mundo Deserto de Almas Negras”

27 de fevereiro de 2017 – Cinema

Baseia-se numa proposta interessante: a de imaginar uma São Paulo em que o preconceito é às avessas daquele que conhecemos. Na cidade em que se desenrola a história de “Mundo Deserto de Almas Negras”, a elite tem pele preta e a periferia é branca. Quanto à estética, o caráter experimental do filme lhe rendeu uma Menção Honrosa no Cine PE Festival do Audiovisual. Mas talvez o anseio em apresentar premissa e estética ousadas tenha colocado o cuidado com o desenrolar da história em segundo plano.

O filme conta como o advogado Oscar (Sidney Santiago) passa a se envolver com o crime organizado. Após aceitar a proposta da Fundação do Crime de levar um celular para um dos membros da organização que está na cadeia, Oscar vê o objeto ser roubado e, a partir daí, precisa tentar sobreviver diante das ameaças da Fundação.

Enquanto o advogado tenta remediar o problema gerado pelo roubo do celular, conhecemos a história dessa São Paulo fictícia que é igual e diferente da cidade que conhecemos. Igual porque mantém o racismo; diferente porque na cidade do filme quem sofre com o preconceito são os brancos.

Embora a premissa seja interessante, por vezes a tentativa de mostrar a discriminação às avessas soa demasiadamente insistente e artificial. Já a estética experimental pautada na “afrobrasilidade” (como pontua a equipe Heavybunker no site oficial do grupo) é um dos pontos positivos, bem como a trilha sonora.

No meio da experimentação estética e da proposta de enredo original, a história de Oscar, da Fundação e da própria São Paulo aparece mal contada. Ainda assim, vale a pena conhecer o longa.

O mais impressionante em “Mundo Deserto de Almas Negras” é que, apesar de tanta experimentação, o que mais destaca o filme de outras obras nacionais é o simples fato de haver nele um elenco majoritariamente negro.

Sob esse aspecto, o longa é exceção que confirma a regra, e isso nos ajuda a refletir, mais até que os diálogos incessantes do filme, sobre a sociedade desigual e racista na qual vivemos.

“Mundo Deserto de Almas Negras” tem direção e roteiro de Ruy Veridiano e é o primeiro longa-metragem produzido pelo coletivo HeavyBunker.

 

Dualidade no cinema

“Beasts of No Nation ” é um convite à reflexão sobre a guerra e os nossos inimigos

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“Beasts of No Nation” é o primeiro longa-metragem de ficção da Netflix

20 de fevereiro de 2017 – Cinema

“Não és bom, nem és mau: és triste e humano”, disse o poeta Olavo Bilac no primeiro verso de “Dualidade”. Com esse poema, Bilac faz refletir sobre a condição humana, na qual oscilamos entre a realização de “horrores e ações sublimes”. Ao tratar dessa dualidade, “Beasts of No Nation” (Cary Fukunaga, 2015), assim como o poema de Bilac,  faz com que lembremos nossa humanidade e, acima de tudo, a humanidade de nossos inimigos.

O atual inimigo número um das grandes potências é o Estado Islâmico. No Brasil, embora não tenhamos tido nenhuma experiência direta com o terrorismo, acompanhamos com apreensão o cenário internacional.

Basta ligar a televisão em uma noite de domingo para identificar um número significativo de reportagens especiais sobre os “monstruosos” integrantes desse grupo extremista.

As reportagens jornalísticas sobre o tema são catastróficas; o objetivo, é claro, é que sejam mais violentas e amedrontadoras que o mais macabro filme de ficção. Afinal de contas, já faz algum tempo que as regras do bom jornalismo não têm como competir com a sede por audiência.

O grande problema em relação ao modo como a mídia trata o tema é que, ao abordá-lo de maneira tão maquiavélica e simplista, ela reduz nossa capacidade de reflexão sobre a complexa sociedade na qual vivemos.

É claro que os atos dos integrantes do Estado Islâmico são monstruosos. Afinal, eles têm decapitado e matado centenas de inocentes mundo afora. Embora possamos dizer que os atos de guerra desses indivíduos são assombrosos, poderíamos falar que eles são reles monstros, negando-lhes a condição humana?

A maioria das reportagens de televisão que vemos sobre o tema conduz a uma estreita linha de pensamento: sim, eles são, simplesmente, os seres mais vis que já existiram.

Essas reportagens quase sempre lhes negam toda a humanidade. O problema é que esse raso raciocínio só conduz a população ao puro e simples medo, e esse sentimento nunca foi um bom conselheiro.

Quando nossa população tem diariamente o temor alimentado, ela perde o poder de reflexão, e aí já não importa por quantas guerras tenhamos passado, quantos livros já tenhamos escrito ou quantos monumentos já tenhamos criado para falar dos perigos de enveredar por conflitos armados. O medo faz esquecer as lições do passado; torna-nos mais manipuláveis e propensos ao ódio.

“Beasts of No Nation” não é um filme espetacular. Baseado no livro “Feras de nenhum lugar” (ed. Nova Fronteira; 192 páginas, esgotado), do nigeriano Uzodinma Iweala, ele é muito similar a outros filmes de guerra, mas um de seus méritos, talvez, seja o fato de nele a história ser contada desde o ponto de vista de um menino-soldado.

Agu (vivido pelo ator Abraham Attah, que com o papel ganhou o prêmio de ator revelação no Festival de Veneza) é uma criança que vive em uma não especificada nação africana. Ele representa as tantas crianças-soldado, “feras de nenhum lugar”, que vivem a guerra em vários cantos do mundo.

O enredo do filme é simples: no início da história, conhecemos a vida modesta e feliz de Agu e em seguida acompanhamos como ele se torna, após o massacre de seus familiares, um soldado disposto a cometer atrocidades.

O elenco conta com o ator inglês Idris Elba, que interpreta a personagem conhecida como Comandante, e a direção é de Cary Fukunaga, diretor da primeira temporada da série “True Detective”. Vale lembrar também que a obra é o primeiro longa-metragem de ficção da Netflix.

É o que nos ensina a personagem Agu que faz com que o filme se destaque de outros: em um determinado momento da história, a criança avalia os crimes que cometeu e chama a si mesma de monstro, mas nos lembra que algum dia teve uma família que a amou.

Embora esse menino atormentado veja a si mesmo de maneira tão negativa, ao acompanhar sua história temos contato com sua dualidade e podemos reconhecer nele alguém que se tornou capaz das mais horríveis atrocidades, mas a quem não podemos negar sua condição humana.

O mérito do filme é a capacidade que ele tem de conduzir a essas reflexões, sobretudo em esses tempos nos quais muitas vezes somos guiados, pela televisão, apenas pelos caminhos simplistas do medo.