Nos dias de hoje, querer se informar é quase revolucionário

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Opinião – 01 de novembro de 2019

Não importa a idade, o que percebo atualmente entre velhos e jovens é um apego ferrenho às próprias opiniões e um descaso em relação aos fatos. Dou um exemplo: ontem, enquanto caminhava com uma amiga, por alguma razão começamos a falar sobre o SUS. Ela, que tem uns 20 e poucos anos e estuda em uma das mais respeitadas universidades públicas do país, a UFMG, perguntou-me se o SUS já não existe, quase como quem pergunta apenas para confirmar uma informação.

Eu disse a ela que, sim, o Sistema Único de Saúde, singular em todo o mundo e referência em muitos países, apesar dos problemas, ainda existe. Minha amiga se apressou em afirmar que o SUS é péssimo e que deixa muito a desejar. É um caos. Um horror. Expliquei a ela que o SUS, dependendo da região ou do posto de saúde, sofre, sim, com muitas debilidades. Há sucateamento, profissionais desesperançados, desvio de verba. Como não cansamos de ver na televisão, infelizmente, pessoas chegam a morrer em filas de espera.

Entretanto, também é fato que o sistema que garante acesso gratuito a qualquer cidadão brasileiro é tido como referência no tratamento de doenças sérias, como a Aids. O Programa Nacional de Imunizações e a Estratégia Saúde da Família são, também, exemplos do que costuma funcionar com excelência. É importante lembrar que, mesmo com as debilidades, o SUS se destaca no cenário internacional porque é a materialização da garantia constitucional de que a saúde é um direito do cidadão e um dever do Estado.

Mesmo em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, a população não tem tantas garantias. Lá, o programa estatal não é universal, e muita gente sofre para conseguir tratamento adequado. O que devemos fazer no Brasil, então, é lutar para melhorar e fortalecer o que já temos, e não apostar na demonização do serviço público.

Minhas observações não adiantaram muito. Prontamente, minha companheira de caminhada decidiu ignorar tudo o que eu havia dito. Reforçou, com bastante autoconfiança, que o SUS é simplesmente péssimo e sem jeito. Fim de papo. Antes disso, entretanto, não deixou de rir do fato de eu haver dito que éramos uma referência para alguns países.

Pronto. Mais uma vez, todos os meus dados e eu fomos colocados para escanteio sem a menor cerimônia. Minha amiga seguiu os passos de muita gente hoje em dia e, descartando qualquer possibilidade real de diálogo, apegou-se àquele fiapo geral de ideia que possuía desde o início da conversa a respeito do sistema de saúde brasileiro.

Voltei para a casa encucada com isso. Lembrei-me de haver escutado em algum lugar que a nova onda é a seguinte: se falam algo com o qual concordo, então essa afirmação é verdadeira. Se falam algo em desacordo com o que acredito, então só pode ser fake news. Acho que é isso mesmo o que acontece hoje em dia. As pessoas têm noções vagas sobre assuntos que afetam diretamente suas vidas, como o SUS, a universidade pública, a Amazônia, a população indígena. E, no final, só é verdade para elas aquilo que lhes cai bem.

Acontece que, muitas vezes, essas noções vagas sequer têm um fundamento concreto em dados ou pesquisas. Servem mais para fortalecer o discurso dos grupos que estão no poder. E, assim, aos poucos e de maneira bem discreta, até mesmo o mais pobre dos homens passa a incorporar, quase por osmose, o discurso daqueles que querem a privatização do SUS ou das universidades ( porque, afinal, esses serviços não prestam, não é?), o desmatamento da Amazônia em busca de riquezas minerais ou o repúdio a imigrantes.

É por isso que defendo que, com a chamada pós-verdade dos dias atuais, é cada vez mais importante comprometer-se com o aprendizado e com uma postura aberta para a descoberta, a investigação e o querer saber. Seja na sala de aula com professores ou numa roda entre amigos, dê a si mesmo o direito de duvidar daquilo que acabamos aprendendo por osmose. Em vez de preferir ganhar o jogo ou, como dizemos nesses dias estranhos, lacrar ou mitar, aceite o risco de mudar de ideia.

Além de isso ser mais honesto com o seu interlocutor, que pode querer aprender com você também, o gesto é, no cenário atual, basicamente revolucionário. Em um mundo no qual há muita informação cheia de interesses e pouco espaço para a curiosidade e o aprendizado, só se torna cidadão de verdade quem se predispõe a analisar dados e, a partir deles, prepara-se para o verdadeiro diálogo e para uma formação consciente da própria opinião.

 

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