Superestimado pela crítica, principal mérito de ‘Coringa’ é Joaquin Phoenix

Atuação intensa do ator salva o filme, que patina em roteiro que se esforça demais em convencer o espectador sobre o dramalhão que dá origem ao supervilão

O ator Joaquim Phoenix é Arthur Fleck no longa de
O ator Joaquim Phoenix é Arthur Fleck no longa de Todd Phillips.

14 de outubro de 2019 – Cinema

É uma pena, mas Coringa, de Todd Phillips ( Se beber, não case), é quase só um filme que se levou a sério demais. Para falar sobre isso, é preciso antes dizer que um dos grandes acertos recentes relacionados à realização de obras baseadas em HQs foi entender que se pode ir além do universo fantástico e tornar tais filmes instrumentos inteligentes para se pensar a vida real. Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan, fez isso muito bem. Nele, adivinhem, o personagem mais interessante do enredo é justamente o supervilão, muito bem interpretado por Heath Ledger.

A ideia, então, de fazer filmes de super-heróis para todos e não somente para os fãs de histórias em quadrinhos é uma proposta interessante não só porque engorda o bolso da indústria com novos clientes, mas também porque pode adicionar camadas de reflexão a filmes por vezes rasos demais.

O problema neste Coringa, entretanto, é a dosagem empregada: curtindo essa nova linha, privilegiou-se um roteiro pesado e melodramático, a fim de nos convencer sobre o porquê de Arthur Fleck ter se tornado um grande vilão. O resultado bateu em mim como um dramalhão hollywoodiano dos mais chatos. A cena inicial do palhaço espancado, por exemplo, em vez de convencer, dá preguiça, de tão boba e pueril.

A partir daí, foi mais de uma hora e meia de filme antes da virada no roteiro. Todo esse tempo para convencer, de maneira beeeeem didática, sobre os motivos que justificam o surgimento de um dos mais marcantes personagens de Gotham. Que cansaço! Assim, vejam só, na tentativa de ser sério demais, o filme se torna, na verdade, raso. Agora começo a entender por que acreditam que valha a pena uma indicação ao Oscar. Mais um filme chato a concorrer à estatueta.

Leitores, deem uma chance ao novo, ao desconforto. Saiam dos enlatados e se aventurem em propostas diferentes. Como sugere o diretor franco-argentino Gaspar Noé, não vale a pena viver de McDonalds, bem como não é interessante o consumo de tanto cinema comercial norte-americano.

O cinema pode ser maior,  mais bonito, mais perturbador. Por isso, experimentem. Apostem no que é fora da curva, no que é avassalador e até no que é tedioso e ruim, desde que isso represente a diferença. Permitam-se crescer com o cinema e vivam a cultura de mais de um país. Afinal, por que apreciar a produção de um só lugar se há centenas de outras ideias esperando por nós por aí?

Coringa, ainda assim, tem algo de desconcertante e excepcional: não há dúvidas de que a atuação de Joaquin Phoenix, totalmente entregue ao trabalho, salva o longa. Apesar de difícil por causa de todo o resto, é interessante acompanhá-lo em seu processo físico de liberação do supervilão. As cenas nas quais ocorre a dança em que há a transmutação do personagem, são, indubitavelmente, primorosas. Espaços de respiro nos quais é possível curtir um pouco de poesia e originalidade.

Nota 1

Apesar dos poréns, dá, sim, para refletir sobre vários temas com a obra.  É possível pensar sobre saúde mental ( a frase ” a pior parte de ter uma doença mental é que as pessoas esperam que você se comporte como se não a tivesse”, que Arthur escreve em seu caderno de anotações, é excelente).

O principal, entretanto, é a crítica aos nossos tempos modernos ( viu a referência a Chaplin no filme?) e a como o sistema capitalista também contribui para o desenvolvimento da loucura na sociedade. Afinal, Arthur tem problemas psicológicos, mas perde as estribeiras de vez quando Gotham lhe nega assistência psicológica e o acesso a remédios controlados.

A velha crítica ao sensacionalismo da televisão, inescrupulosa quando o assunto é tripudiar sobre pobres e necessitados, também está presente, com referências claras a O rei da comédia, de Martin Scorcese. Outra forte referência é Taxi Driver.

Nota 2

Para quem não o conhecia, Joaquin Phoenix é um ator que já rendeu a Hollywood muitas performances marcantes.  Para saber mais, procure por ele em obras como Gladiador (2000), Johnny & June (2005), O Mestre (2012) e Ela (2013).

Ponto também para a fotografia do filme, que vai deixando de lado o tom cinzento para ganhar cores vivas à medida que o personagem se transmuta em vilão. Coringa ganhou o Leão de Ouro, o principal prêmio do Festival de Veneza, onde foi ovacionado pelo público.

Nota 3

Sobre a glamorização do mal. O problema nunca é da obra, nunca é do filme. Gente esperta vai compreender que Arthur sofria de um transtorno mental ( isso estava muito claro no filme, não é?) e entender também que nada justifica o que ele faz, embora não haja mal nenhum em mergulhar sobre as mais diferentes perspectivas de uma história.

A sessão à qual fui estava cheia. Repleta de gente que ficou em silêncio quase do início ao fim. As pessoas pareciam, como eu, um pouco desconfortáveis com a loucura que se apresentava na tela. Essa gente sabe que Arthur é transtornado. E ponto. Não vai, de forma alguma, achar cabível utilizá-lo como representante dos fracos e oprimidos do mundo real.

Mas acontece que havia um homem na sala  (e é claro que ele estava sentado justamente atrás de mim) que, lá pelo final do filme, começou a rir de maneira estranha, tipo Coringa, nas horas mais inusitadas. Conclusão: sempre há um espírito de porco que, por mero capricho ou por maldade mesmo, quer colocar medinho nos coleguinhas. Da mesma maneira, sempre vai haver gente que pode considerar essa ou qualquer outra obra como bastião para erigir as ideias mais tortas e mais estranhas.

Dentre todas as cenas deprimentes, nas quais Phoenix ostenta com maestria seu corpo magro, os dentes feios e o cabelo sujo e oleoso ( nada glamoroso, portanto), um grupinho  de espectadores vai preferir se concentrar no momento em que ele aparece grandioso, pronto para se liberar de tudo o que deu errado em sua vida. Para essa gente, só vai restar a ideia de que, depois de Arthur matar e se assumir como Coringa, veio a libertação.

E o filme dá essa guinada mesmo. Depois de falar baixinho e aturar muita chateação durante todo o enredo, o personagem principal se transforma em algo atraente: quando mata, torna-se senhor de si. A cena em que aparece dançando na rua,  no pé de uma escadaria que agora já não é mais um empecilho numa vida deprimente, mas sim um cenário de libertação, é o exemplo disso.

Quem tem a cabeça no lugar não vai, entretanto, sequer pensar em cair nesse discurso. Quem não tem, até pode. Afinal, há sempre aqueles que só estão à procura de uma justificativa. O problema, assim, não é o filme. São as pessoas e a falta de educação ( no sentido amplo da palavra) e de limites.

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