O Outro Eu

Já se viu dividido entre vários “eus”? Confira conto do escritor uruguaio Mario Benedetti sobre o tema

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Heroes, Ivan Pinkava

30 de janeiro de 2017 – Literatura

Quem nunca encarou diante de si os vários “eus” que nos habita? Dentro de nós mora muitas personalidades; umas são mais fáceis de encaixar no que desejamos para nós mesmos, outras nem tanto. Algumas delas são perfeitas para as demandas do mundo em que vivemos, outras deixam a desejar. Pesquisando sobre o tema, conheci o conto “El Otro Yo”, do escritor uruguaio Mario Benedetti. O texto, curto e preciso, trata da história de Armando Corriente e seu “outro eu”. Confira a tradução livre do conto:

O Outro Eu

(A morte e outras surpresas, 1968)

Tratava-se de um rapaz comum: usava calças da moda, lia gibis, fazia barulho enquanto comia, cutucava o nariz com o dedo, roncava durante a soneca, se chamava Armando Corriente* em tudo menos em uma coisa: tinha um Outro Eu.

O Outro Eu usava certa poesia no olhar, se apaixonava pelas atrizes, mentia cautelosamente, se emocionava com o entardecer. O rapaz se preocupava muito com seu Outro Eu e o fazia se sentir incomodado diante de seus amigos. Já o Outro Eu era melancólico e, por causa disso, Armando não podia ser tão vulgar quanto desejava.

Uma tarde Armando chegou cansado do trabalho, tirou os sapatos, moveu lentamente os dedos dos pés e ligou o rádio. Estava tocando Mozart, mas o rapaz dormiu. Quando acordou, o Outro Eu chorava desconsoladamente. Em um primeiro momento, o rapaz não soube o que fazer, mas depois se refez e conscientemente insultou o Outro Eu. Este não disse nada, mas na manhã seguinte já havia se matado.

No começo, a morte do Outro Eu foi um duro golpe para o pobre Armando, mas depois ele pensou que agora sim poderia ser inteiramente vulgar. Esse pensamento o reconfortou.

Levava apenas cinco dias de luto quando saiu pelas ruas com o propósito de exibir sua nova e completa vulgaridade. De longe viu que seus amigos se aproximavam. Isso o encheu de felicidade e o fez imediatamente explodir em risadas. Entretanto, quando passaram próximo dele, seus amigos não notaram sua presença. Para piorar, o rapaz pôde escutar que comentavam: “Pobre Armando. E pensar que parecia tão forte e saudável”.

O rapaz não teve outro remédio que parar de rir e, ao mesmo tempo, sentiu na altura do peito uma aflição que se parecia muito a nostalgia. Mas ele não pôde sentir uma autêntica melancolia, porque toda a melancolia tinha sido levada pelo Outro Eu.

* A palavra “corriente” pode significar “comum”, “regular”, “não extraordinário” em espanhol.

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